sexta-feira, 8 de julho de 2022

VILOMAH – O LUTO DOS PAIS: NEOLOGISMO LEXICAL

PAICHECO, Cleonice Gomes Ferreira (Artigo apresentado como requisito ao Estágio Iniciação Científica do curso de licenciatura: Formação Pedagógica em Letras no Centro Universitário Internacional Uninter Polo Barreiro/BH - MG. APROVADO em 26/06/2022).
https://pt.scribd.com/document/709337108/Vilomah-o-Luto-Dos-Pais-Neologismo-Lexical


VILOMAH – O LUTO DOS PAIS: NEOLOGISMO LEXICAL[1]

PAICHECO, Cleonice Gomes Ferreira[2]

LAUFER, Albertina[3] 

RESUMO

Este trabalho analisa 7 (sete) estudos de linguagens de 2018 a 2021 de terminológos e linguistas para compreensão ampla do campo da lexicografia e neologia, além de produções digitais internacionais do movimento de pais enlutados na busca do registro formal do léxico: Vilomah, palavra adotada informalmente por cientistas e pais para atribuir a dor e luto ao perderem um filho, assim como, nomear o que os pais se tornam após a perda do filho. O termo possui origem do sânscrito, que significa contra a ordem natural. Pois não é natural enterrar pessoas mais jovens. A problemática consiste em apoiar a oficialização do termo no vocabulário e obter como empréstimo para popularizar no Brasil visto que não há na nossa cultura. Justifica pela necessidade humana de nomear a dor e ser compreendido, definir a sua identidade, auxiliar o encontro de grupo de pertencimento, dar sentido e legitimar a experiência que não é uma fase temporária, pois, transforma e marca a historia destas pessoas. Portanto, concluiu-se sobre a urgência no registro oficial do termo nos dicionários internacionais, da influência da tecnologia e globalização na integração do léxico na cultura, assim como da importância de trabalhar o neologismo na educação formal para desenvolvimento da escrita criativa e disseminação do movimento de pais enlutados.

Palavras-chave: Neologismo. Léxico. Vilomah. Luto. Empréstimo.

1.   Introdução

O presente artigo é  uma pesquisa de estágio no modelo iniciação científica - Intersecções: Língua, cultura, história e tecnologias. Foi realizada com intuito de abordar sobre o neologismo lexical Vilomah.

A língua, a cultura e história se entrelaçam no jogo entre significante e significado, pois, ela não é estática. Como um produto social, a língua é um instrumento vivo que passa por constantes adaptações para atender as necessidades de seus usuários, inevitavelmente os itens lexicais, expressos nos discursos sofrem modificações para o contexto inserido na mesma medida em que a sociedade muda (OLIVEIRA, 2019).

Da mesma forma, a cultura é dinâmica e instável principalmente no mundo tecnológico e globalizado em que vivemos, portanto, uma cultura é resultado de outras culturas e estas se misturam, formam novas e múltiplas culturas no tempo e no espaço (TIMBANE E COELHO, 2018).

Vilomah é um termo de origem do sânscrito que significa contra a ordem natural, escolhido por Karla Holloway em 2009 para descrever o luto dos pais ao perder um filho. “Há um ditado chinês que diz: “cabelo grisalho não deve enterrar quem tem cabelo preto” Se o fizerem, seremos vilomalizados” (HOLLOWAY, 2022).

É comum o uso de palavras e expressões que até o momento não existiam e começaram a existir simplesmente pelo fato de possibilitar o ato da comunicação. O acesso a pesquisas, sites e blogs possibilita a investigar e a interação entre os membros, formação de grupo, consequentemente, à ocorrência de neologismos lexicais (TIMBANE E COELHO, 2018).

O léxico é o patrimônio de cada indivíduo, da comunidade linguística e da academia que o estuda. A terminologia e a lexicologia constituem como campo de estudo do léxico e desenvolvimento de neologismos (MACHADO, 2018).

Portanto, o objetivo principal desta pesquisa consiste em analisar trabalhos científicos e conteúdos digitais de grupos de pais enlutados para integrar o neologismo lexical Vilomah no vocabulário. Realizada por meio da pesquisa bibliográfica de cunho qualitativo para compreensão com mais profundidade do desenvolvimento à linguagem quanto ao neologismo; À etimologia, cadeia de sentidos, introdução na história e cultura à utilização do léxico: Vilomah; Averiguar a influência da tecnologia e globalização na aceitação e popularização de novos termos, importância de trabalhar a criatividade em sala de aula.

Com isso, propõem-se a linguística, a literatura, as licenciaturas, as ciências humanas e sociais e aos pais enlutados no Brasil - a adoção do termo Vilomah.  Assim como o debate e ensino de neologismo em sala de aula para incentivo a pesquisas e desenvolvimento integral, consideração no âmbito dinâmico e criativo da cultura.

2     Metodologia

A abordagem desta pesquisa foi de cunho qualitativo que não visa à quantificação e mensuração, mas a qualidade da informação e interpretação do leitor (Godoy, 1995). Realizada como critério de cientificidade por meio de uma análise bibliográfica, conforme Matta (2008) uma das fontes mais tradicionais de pesquisa recorre a textos teóricos, artigos, teses, dissertações, outros documentos impressos e eletrônicos disponíveis online.

Houve um levantamento quanto ao termo: Vilomah que abrange conteúdos internacionais, estes conteúdos passaram por um processo de tradução própria com auxílio do Google tradutor. Ao colocar o léxico Vilomah no Google Scholar foram encontrados 32 artigos internacionais, foram escolhidos 5 (cinco)[1].

1.       ICHIPRO é uma revista digital japonesa, divulgada em várias línguas com  projetos sociais e conteúdo relativo à compreensão das necessidades  humanas. A revista possui uma matéria sobre a palavra Vilomah. 

2.       Karla Holloway, africana, nascida em 1949, graduada em Linguística na Universidade de Harvard, estudou literatura, política e economia. Foi membro da universidade Duke (Estados Unidos) até 2017 quando se aposentou.  

3.      Robert Frost - um poeta americano que após a perda da esposa e de quatro  filhos escreveu um poema em um dos seus primeiros livros, o poema  “Enterro em casa” (Home Burial - original). 

4.      Cake é uma empresa criada por médicos formados no MIT e Havard que  auxiliam as pessoas em processo de luto, possuem uma biblioteca de  profissionais, publicam conteúdos e documentos relacionados à morte. A  Dra. Vasquez, bacharel em Ciência Politica, publicou o artigo - Vilomah: Origin  & What It Mens for Parents who lost a child. Atualizada no dia 18 de Janeiro de 2022. 

5.      No Reino Unido há uma instituição de caridade sediada com objetivo de  fornecer apoio a pais enlutados em todo o mundo: Our Missing Peace  <https://www.ourmissingpeace.org/>. No site há artigos que podem ser  utilizados. O país é um grande precursor do movimento: A Bereaved parent (Um familiar enlutado) criaram um abaixo-assinado para pressionar Oxford English Dictionary a introduzir Vilomah no dicionário. Disponível em: <https://www.change.org/p/oxford-english-dicsonary-get-vilomah-into-the-dictionary>. Data de acesso e  assinatura: 09 de Novembro de 2021. 

Quanto ao estudo dos neologismos (período de 2018 a 2022) foram encontradas: 4.410 pesquisas (2.740 em português). Destes, 912 com as palavras chave: Neologismo. Lexical. Empréstimo. Linguística. Cultura. Por meio da pesquisa das palavras chave foram escolhidos 31 (trinta e um) trabalhos acadêmicos e/ou artigos que favorecem o desenvolvimento da pesquisa, dentro do campo de intersecções: Língua, cultura, história e tecnologias. Destes, 7 (sete) foram pré-selecionados de 2018 a 2021 para leitura e fichamento por contemplar todas as palavras chave.

2018:

1.        FARGETTI, Cristina Martins. Léxico em pesquisa no Brasil.

2.       MACHADO, Amanda. Propostas de Dicionário e de outros materiais didáticos na língua Wapichana.

3.      SILVA, Renaldo César Bueno Alves da. Eis que, Posto que de Vez que  como conectivos causais [manuscrito]: Variação e padronização no  Português do Brasil.

4.      TIMBANE, Alexandre Antônio; COELHO, Dayanny Marins. Os  neologismos e a ampliação lexical nas redes sociais.

2019:

5.      OLIVEIRA, Antônio Marcos Vieira de. A Neologia semântica presente em  capas de revista: um estudo à luz da abordagem cognitiva.

2020:

6.      BARBOSA, Carlos Daví Alves. A história da língua latina e seu processo de mudança lexical na língua portuguesa e sua abordagem no livro didático do 1º ano do ensino médio. 

2021:

7.       TIMBANE, Alexandre Antônio; ROCHA, Fabiana Ferreira da. A  Criatividade Lexical do Português Brasileiro na Imprensa Escrita Catalana.

Com relação às palavras chave, os artigos escolhidos que repetem a autoria, conforme Lattes (2022) foi: TIMBANE, Alexandre António: Doutor em Linguística e  Língua Portuguesa (2013) pela UNESP, Mestre em Linguística e Literatura  moçambicana (2009) pela Universidade Eduardo Mondlane – Moçambique (UEM). É  Licenciado e Bacharel em Ensino de Francês como Língua Estrangeira (2005) pela  Universidade Pedagógica-Moçambique (UP). Atualmente atua como professor  titular na Universidade Academia de Ciências Policiais de Moçambique (ACIPOL). É  pesquisador em Linguística Forense aplicada às ciências policiais. É membro do  Grupo de Estudos de Linguística Forense da Universidade Federal de Santa Catarina e membro da International Association of Forensic Linguists (IAFL).

 

3.  Neologismo lexical

O léxico é um acervo de palavras utilizadas pelos falantes, portanto, se insere na oralidade, na informalidade, tão amplo que nem o dicionário consegue dar conta dele. Esta amplitude está em constante remodelação e reconstrução (TIMBANE E COELHO, 2018).

Neste processo de evolução, o léxico acompanha o desenvolvimento humano e as transformações ao longo das gerações, deixam de ser usuais e novas unidades lexicais surgem (OLIVEIRA, 2019).

Pode ser compreendido como o estudo da etimologia das palavras que permite a apropriação cultural, estrangeirismo e criatividade lexical, geralmente ensinado nas aulas de literatura. Portanto, neologismo lexical consiste na capacidade de inovação da língua na criação de palavras novas (FARGETTI, 2018).

Timbane e Rocha (2021) resumem o neologismo lexical como o estudo da formação de palavras que geralmente se manifestam numa dada língua. Enquanto, para diferenciação, o neologismo semântico se inscreve no âmbito do sentido e significado da palavra.

Conforme aponta Oliveira (2019), a utilização de neologismo reflete o mundo extralinguístico do usuário que o utiliza para integrar o seu pensamento, identidade e imaginação, carrega um traço ideológico, desencadeia discursos e novas maneiras de pensar e agir. Timbane e Rocha (2021) dão ênfase na tendência humana consciente ou instintiva em nomear tudo.

Em sala, enquanto profissionais da área linguística, terminologia, lexicografia e literatura, temos que estimular a criação de neologismos para ampliação da competência lexical do aluno com a brincadeira de produção de neologismos. Essas criações lexicais na escola podem ajudar o aluno a compreender que o léxico é uma estrutura dinâmica (MACHADO, 2018).

O desenvolvimento da linguagem quanto aos neologismos lexicais ocorre por intermédio da literatura, âmbito da escrita, onde há mais possibilidade de improvisar, criar, inventar e apresentar estilo nos textos, autoria, identidade e sentimento de pertença cultural (FARGETTI, 2018).

Nessa perspectiva, pode-se afirmar que o léxico e a cultura, são parceiros fidelíssimos no processo de comunicação, uma vez que ambos estão ligados à identidade do sujeito, já que cada indivíduo tem liberdade para proferir quaisquer palavras de acordo com as situações de comunicação ou ainda, de acordo com os contextos em que acontece o discurso (TIMBANE e COELHO, 2018).

O processo descritivo muitas vezes é motivado por áreas de atividade técnica, científica e profissional, recorrem à utilização do vocabulário comum a eles e ao uso de termos específicos, a recursos linguísticos peculiares e expressões não dicionarizadas, como no caso da linguagem jurídica - o juridiquês (SILVA, 2018).

Pois, conforme Timbane e Coelho (2018), a língua está intimamente ligada à cultura e às mudanças culturais, facilitado por meio das novas tecnologias da informação, programas, aplicativos e redes sociais, etc. Este cenário evolutivo criou uma espécie de “mundo comunicativo globalizado” no qual as pessoas se sentem perto umas das outras, estando distantes apenas por um simples clique. Desta forma, o acesso à informação é rápido e eficaz, desafiam a linguística para inovação em qualquer parte do mundo, inclusive, há sua própria linguagem - o internetês que possuem abreviaturas, siglas e acrônimos para além de reduzir frases.

Os autores também salientam que as mensagens de texto tendem a imitar a linguagem oral e desviam das normas padronizadas pela ortografia, apresentam formações novas de palavras, de ideias e de significados (neologismos formais, semânticos e empréstimos) vindas, majoritariamente, da língua inglesa.

Timbane e Rocha (2021) também apontam a influência da língua inglesa na entrada de novas palavras, pouco expressivas do espanhol, apesar de estarmos rodeados por países latinos.

Fargetti (2018) atribui como um dos motivos para o pouco desenvolvimento da escrita criativa no Brasil, o fato de o país valorizar mais a oralidade, possuir poucos recursos para aquisição de livros e pouca aderência à cultura da leitura.

 

3.1 Neologismo Vilomah: O luto dos pais

No Brasil e alguns países ainda não há um termo para os pais que perderam o filho. Entretanto, a necessidade de um léxico para descrever este luto é uma demanda já marcada na história.

Sabe-se que em 1962 um poeta americano, Robert Frost (2022) após a perda da esposa e de quatro filhos escreveu um poema em um dos seus primeiros livros, denominado “Enterro em casa” (Home Burial - original), nele expõe uma discussão de um casal para decidir onde enterrar o filho, em um trecho, há o confronto entre o homem e a mulher: “um homem não pode falar do próprio filho que perdeu?”, “Conte-me sobre isso se for algo humano”. “Deixe-me entrar em sua dor”. Portanto, o poema gira em torno da dor inconsolável e inominável, na qual gostaria de saber nomear para ser compreendido e tentar compreendê-la, o luto como a perda do próprio coração e a inevitabilidade da solidão.

No livro publicado em 1976, intitulado “An Orphan's Tale” do escritor e romancista Jay Neugeboren, salienta:

 

A esposa que perdeu o marido é chamada de viúva. O marido que perdeu a esposa é chamado de viúvo. Uma criança que perdeu os pais é chamada de órfã. Não há palavra para um pai que perde um filho. A perda é terrível (ICHIPRO, online, 2022).

 

Em 1988, Ronald Reagan declarou outubro como o Mês Nacional da Conscientização sobre a Gravidez e a Perda Infantil.

Karla Holloway sobre Vilomah publicou: A name for a parent whose child has died no dia 26 de maio de 2009, quando cunhou o termo Vilomah, após anos de pesquisa sobre a perda de um filho, situação que vivenciou em 1999 (VASQUEZ, 2022).

Vilomah, portanto, é a palavra mais apropriada que ela encontrou para descrever o luto do pai ou mãe que perdeu o filho. O termo possui origem em sânscrito que significa contra a ordem natural. Pois, não é natural um filho morrer antes dos pais (ICHIPRO, online, 2022).

Desta forma, podemos considerar como neologia por empréstimo, por ser um item lexical de uma língua estrangeira sendo adaptada à língua receptora com semelhança semântica (OLIVEIRA, 2019).

 

Um dos aspetos linguísticos que mais se evidencia na língua porque ele se desloca de uma língua para a outra, desaparece e reaparece ganha ou perde sentidos semânticos, adapta-se aos novos contextos na língua em que é emprestada (TIMBANE e COELHO, 2018, p. 02).

 

Ferreira (2000) salienta que o sânscrito é uma língua pouco explorada de origem indiana, incorpora diversos léxicos na língua portuguesa, por:

         Reiteração (reprodução do significado e vocabulário, traço simbólico e cultural do colonizador aos colonizados);

         Reconfiguração (empréstimo e reiteração das relações vernáculas com o significante do significado);

         Dispersão semântica (empréstimos para além da reorganização do sentido do signo) responsável pelo desdobramento das potencialidades do mundo manifesto.

Em seu artigo, Ferreira postula exemplos de elementos do mundo vegetal, animal, mineral, mensuração, objetos, profissões, rituais, dentre outros léxicos que foram reiterados ao nosso vocabulário e normatizados nos discursos, nem foram considerados estrangeirismos.

Timbane e coelho (2018) apontam que palavras estrangeiras são utilizadas na comunicação ou são inventadas por necessidade ou luxo. Ainda, Timbane e Rocha (2021) que todas as linguagens no mundo possuem registros de empréstimos de outras línguas, pois, toda cultura é resultado de culturas, línguas e hábitos.

O exemplo mais próximo de Vilomah foi à adoção do léxico: Viúva, que também possui origem em sânscrito, significa “vazia” (ICHIPRO, online, 2022).

Vilomah é um nome para a dor da perda do filho, pode parecer estranho no início, mas nos acostumamos com a palavra "viúva" que devido à aceitação, foi integrada ao nosso uso diário e vocabulário sem considerá-la estrangeirismo. Vilomah não é muito diferente e compartilha a mesma etimologia, também pode ser integrado (HOLLOWAY, 2022). 

As línguas que já possuíam um termo, são: Em alemão, mãe enlutada é uma Verwaiste Mutter. Em árabe, uma mãe enlutada é uma takla. Em hebraico, uma família que perdeu um filho é uma shakula (ICHIPRO, online, 2022). Para os demais lugares, Vilomah poderia ser universal. Fomos vilomizados,

 

Quando uma criança é encontrada empoeirada sob os escombros de um terremoto ou para crianças que morrem de fome. Nossos números que crescem diariamente – com atropelamentos e descuidos, com genocídios e acidentes, doenças e suicídio. Um pai cujo filho morreu é um vilomah. Assista ao noticiário da noite e você verá um vilomah. Examine as notícias na web e você lerá sobre um vilomah. Ande pelo seu bairro, há casas com vilomahs dentro. A diferença entre a dor de hoje e a de amanhã é que agora há um nome: Vilomah - Um pai cujo filho morreu (HOLLOWAY, 2022, online).

 

Profissionais da empresa Cake, criada por médicos formados no MIT e Harvard que auxiliam as pessoas em processo de luto, desenvolvem matérias digitais, dentre eles, Vasquez (2022) publicou o artigo - Vilomah: Origin & What It Mens for Parents who lost a child.  Nele, Vasquez aponta que a perda de um filho é uma das experiências mais dolorosas, traumáticas e insuperáveis que um pai pode passar; agravado quando é repentina, inesperada e trágica. A não existência de uma palavra na língua inglesa ou outra língua amplamente conhecida faz com que os pais precisem de longas explicações para relatar o sofrimento, leva a revivência do luto ao repetirem a frase “Eu tive um filho que já morreu”.

Vilomah é uma palavra nova e antiga (escrituras), conforme aponta Vasquez (2022), mas que não estava presente na língua inglesa, foi introduzida informalmente por diversos autores e movimentos de pais para auxiliar a comunicação sobre o luto e a dor de perder o filho.

No Reino Unido há uma instituição de caridade sediada com objetivo de fornecer apoio a pais enlutados em todo o mundo: Our Missing Peace <https://www.ourmissingpeace.org/>. O país é um grande precursor na utilização e para introduzir o termo vilomah no vocabulário.

Há um abaixo assinado criado por “A Bereaved parent” Um familiar enlutado para tornar oficial a palavra Vilomah no Oxford English Dictionary. Disponível em <https://www.change.org/p/oxford-english-dicsonary-get-vilomah-into-the-dictionary>[2] com meta de 2.500 (duas mil e quinhentas) assinaturas necessárias para que o léxico seja mais divulgado na mídia.

Timbane e Rocha (2021) salientam que a dicionarização de palavras não traz garantia de que o termo usado ou consultado por parte da comunidade linguística, mas, garante que o registro formal permite a patrimonialização, a conservação e utilização em algum momento da história.

Ichipro (2022) salienta que dar nome auxilia a reflexão e legitima a dor. Vasquez (2022) salienta que dar um nome é dar identidade aos pais que perderam um filho, reduzir o tabu sobre a morte e morrer, possibilita falar sobre o sentimento e não sofrer em silêncio, encontrar grupos semelhantes, dar e receber conforto e consolo. Ainda, considera que os pais podem buscar uma forma de encerramento e a cura de sua perda. No artigo sugerem formas de honrar a memória que possuem sobre o filho e homenageá-lo.

A tecnologia influencia na variação linguística, principalmente quando os interlocutores identificam interesses, histórias em comum e temas para compartilhar. Estas variações correspondem às necessidades de grupos específicos ou não, cuja população possui um mesmo sentimento de inovação, criação ou adoção (TIMBANE e COELHO, 2018).

O uso de palavras e expressões que até o momento não existiam e começaram a existir pode facilitar o ato da comunicação. Os movimentos internacionais em blogs, sites, dentre outros, facilitam a interação e formação de membros em grupos, influenciam no uso do termo e tentativas de incluir a linguagem formal (TIMBANE e COELHO, 2018).

Barbosa (2020) afirma que a incorporação de neologismo por empréstimo na língua portuguesa acontece de forma natural, sem necessitar de intervenções de leis, decretos ou especialistas sobre o assunto. Pois, quando há necessidade do vocábulo e não há outro equivalente, os falantes encontram o que merece destaque e introduz, mesmo se antes precisar ser aportuguesado.

 

4.      Considerações finais

               Vilomah é um termo de origem do sânscrito que significa contra a ordem natural, escolhida por Karla Holloway em 2009 para nomear o luto dos pais ao perder um filho, portanto, o método de escolha foi um processo de atribuição semântica e por semelhança metafórica com o conceito que buscava, recorreu ao empréstimo.

Trata-se de um léxico que ainda não foi aderido no vocabulário oficial internacional de países que pretendem registrá-lo, portanto, pretendem tornar uma nova palavra da cultura deles, sem considerar estrangeirismo, devido à influência do sânscrito em vários termos por reiteração, desta forma também poderia ser o processo de inclusão no Brasil.

Infelizmente, não precisamos procurar muito para encontrar uma história de alguém que sofreu a morte de um filho. As produções internacionais para integrar o neologismo Vilomah no vocabulário evidenciam o empenho de pais enlutados e demonstram a importância da aceitação do termo, pois esta deveria ser um desafio também para os profissionais nas ciências humanas e sociais na adoção do termo.

Considerando que para se tornarem pais, as pessoas passam por um processo de transformação subjetiva e objetiva que os modificaram biopsicossocialmente. Portanto, a perda de um filho - não deveria transformá-los em não pais ou apenas pais enlutados, como se o luto fosse uma condição permanente ou se a morte do filho fosse algo indiferente.

Há de considerar as tentativas de gestação, organização do lar, trauma do parto, apresentação da gravidez e posteriormente da prole aos íntimos e a comunidade, as expectativas sobre a criança, medo, incerteza, angústia, aceitação, conformidade, desejos e projeções para o futuro, amor, afeto, tristezas e alegrias, mobilização para educação informal e formal, tudo isso e muito mais que pode ter acontecido na vida destas pessoas.

Neste contexto, a necessidade de um termo faz-se urgente, pois, aqueles que foram pais de apenas um filho que morreu: Como eles diriam aos outros que já foram pais, mas agora não são? Perder o filho os torna não pais? Sabe-se que seu mundo e quem eles eram antes mudam para sempre (VASQUEZ, 2022).

Este é o principal motivo que impulsiona o termo Vilomah e deveria justificar no Brasil o apoio aos movimentos internacionais, acesso ao conhecimento possibilitado pela influência da tecnologia e globalização na disseminação da informação.

Ao longo dos anos após a perda do filho (a), é normal que os pais calculem a idade que o filho teria, imaginem com quem pareceria, o que faria no futuro; Falar sobre o luto pode contribuir para estabilidade e manutenção da saúde mental, visto que sublimar é um mecanismo eficiente de elaboração psíquica que pode possibilitar a aceitação e continuidade da vida apesar do acontecimento. Este processo não precisa ser doloroso, pode ser mais contemplativo se a elaboração da perda for adequada com apoio de grupos e profissionais. O que permanece é o amor e a saudade do filho, aquele que os transformou em pais. Portanto, conclui-se constatada a importância de nomear e aderir ao registro oficial do léxico Vilomah nos dicionários internacionais.

Desenvolver novos estudos, citar e referênciar são ações importantes para popularização e aceitação do termo no Brasil. Este debate sobre o neologismo vilomah pode corroborar novas pesquisas e o surgimento de outros termos, inclusive, pode ser um conteúdo discutido nas escolas no ensino médio e superior, incentivando a literatura, a leitura, as pesquisas, o desenvolvimento de palavras e a criatividade.

 

Referências

BARBOSA, Carlos Daví Alves. A história da língua latina e seu processo de mudança lexical na língua portuguesa e sua abordagem no livro didático do 1º ano do ensino médio. Cajazeiras, 2020. 83 F Bibliografia. Orientador: Prof. Esp. Abdoral Inácio da Silva. Monografia (Licenciatura em Letras Língua Portuguesa) UFCG/CFP, 2020.

FARGETTI, Cristina Martins. Léxico em pesquisa no Brasil. Araraquara: Letraria, 2018. 242 páginas.

FERREIRA, M. Palavras de origem indiana no léxico da língua portuguesa: Processos de reiteração, reconfiguração e dispersão semântica. Estudos Linguísticos. São Paulo. GEL. n. XXIX, p. 429-434, 2000.

FROST, Robert. Enterro em casa. Fundação de Poesia. <https://www-poetryfoundation-org.translate.goog/poems/53086/homeburial?_ x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt-BR&_x_tr_pto=sc> Data de Acesso: 23 de Março de 2022.

GODOY, Arida Schmidt. Pesquisa Qualitativa tipos fundamentais. Revista Administração de Empresas. São Paulo. v,35. n,3. p.20-29. Mai/Jun 1995.

GOLDBERG, Leonardo André Elwing. Atitudes perante a morte nos websites de redes sociais: um estudo sobre o luto. 2019. Tese (Doutorado em Psicologia Social) Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019. Acesso em: 2022-04-19.

HOLLOWAY, Karla F.C. A name for a parent whose child has died. 26 May 2009. Duke University. Disponível em: https://today.duke.edu/2009/05/holloway_oped.html Data de acesso: 01 de Março de 2022.

ICHIPRO. Não existe uma palavra para um pai que perde um filho. Revista Digital. Disponível em: <https://ichi.pro/pt/nao-existe-uma-palavra-para-um-pai-que-perde-um-filho-85239593157046> Data de Acesso: 23 de Março de 2022.

MACHADO, Amanda. Propostas de Dicionário e de outros materiais didáticos na língua Wapichana. Cap 5. FARGETTI, Cristina Martins. Léxico em pesquisa no Brasil. Araraquara: Letraria, 2018. 242 páginas.

MATTA, João. Metodologia cientifica na área da informática/João Mattar – 3.ed. ver. e atualizada. Saraiva. São Paulo. 2008. 307p

OLIVEIRA, Antonio Marcos Vieira de. A neologia presente em capas de revistas: um estudo à luz da abordagem cognitiva. 2019. 228f. Tese (Doutorado em Letras) - Instituto de Letras, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, RJ. 2019.

SILVA, Renaldo César Bueno Alves da. Eis que, Posto que e Vez que como conectivos causais [manuscrito]: variação e padronização no Português do Brasil. 2018.

TIMBANE, Alexandre António; COELHO, Dayanny Martins. (2018). Os neologismos e a ampliação lexical nas redes sociais. RELACult - Revista Latino-Americana De Estudos Em Cultura E Sociedade, 4(1).

TIMBANE, Alexandre António; ROCHA, Fabiana Ferreira da. A Criatividade Lexical do Português Brasileiro na Imprensa Escrita Catalana. Signum: Estudos da Linguagem, [S.l.], v. 23, n. 3, p. 10-27, jun. 2021.

VASQUEZ, Alejandra. Vilomah: Origin & What It Mens for Parents who lost a child. The cake library: MIT & Harvard. Publicado no dia 18 de Janeiro de 2022.