VILOMAH – O LUTO DOS PAIS: NEOLOGISMO LEXICAL[1]
PAICHECO, Cleonice Gomes Ferreira[2]
LAUFER, Albertina[3]
RESUMO
Este trabalho
analisa 7 (sete) estudos de linguagens de 2018 a 2021 de terminológos e
linguistas para compreensão ampla do campo da lexicografia e neologia, além de
produções digitais internacionais do movimento de pais enlutados na busca do
registro formal do léxico: Vilomah, palavra adotada informalmente por
cientistas e pais para atribuir a dor e luto ao perderem um filho, assim como,
nomear o que os pais se tornam após a perda do filho. O termo possui origem do
sânscrito, que significa contra a ordem natural. Pois não é natural enterrar
pessoas mais jovens. A problemática consiste em apoiar a oficialização do termo
no vocabulário e obter como empréstimo para popularizar no Brasil visto que não
há na nossa cultura. Justifica pela necessidade humana de nomear a dor e ser
compreendido, definir a sua identidade, auxiliar o encontro de grupo de
pertencimento, dar sentido e legitimar a experiência que não é uma fase temporária,
pois, transforma e marca a historia destas pessoas. Portanto, concluiu-se sobre
a urgência no registro oficial do termo nos dicionários internacionais, da influência
da tecnologia e globalização na integração do léxico na cultura, assim como da
importância de trabalhar o neologismo na educação formal para desenvolvimento
da escrita criativa e disseminação do movimento de pais enlutados.
Palavras-chave: Neologismo. Léxico. Vilomah. Luto. Empréstimo.
1. Introdução
O presente artigo é uma pesquisa de estágio no modelo iniciação científica - Intersecções: Língua, cultura, história e tecnologias. Foi realizada com intuito de abordar sobre o neologismo lexical Vilomah.
A língua, a cultura e história se entrelaçam no jogo entre significante e significado, pois, ela não é estática. Como um produto social, a língua é um instrumento vivo que passa por constantes adaptações para atender as necessidades de seus usuários, inevitavelmente os itens lexicais, expressos nos discursos sofrem modificações para o contexto inserido na mesma medida em que a sociedade muda (OLIVEIRA, 2019).
Da mesma forma, a cultura é dinâmica e instável principalmente no
mundo tecnológico e globalizado em que vivemos, portanto, uma cultura é
resultado de outras culturas e estas se misturam, formam novas e múltiplas
culturas no tempo e no espaço (TIMBANE E COELHO, 2018).
Vilomah é um termo de origem do sânscrito que significa contra a ordem
natural, escolhido por Karla Holloway em 2009 para descrever o luto dos pais ao
perder um filho. “Há um ditado chinês que diz: “cabelo grisalho não deve
enterrar quem tem cabelo preto” Se o fizerem, seremos vilomalizados” (HOLLOWAY,
2022).
É comum o uso de palavras e expressões
que até o momento não existiam e começaram a existir simplesmente pelo fato de
possibilitar o ato da comunicação. O acesso a pesquisas, sites e blogs
possibilita a investigar e a interação entre os membros, formação de grupo,
consequentemente, à ocorrência de neologismos lexicais (TIMBANE E COELHO,
2018).
O léxico é o patrimônio de cada indivíduo, da comunidade linguística e
da academia que o estuda. A terminologia e a lexicologia constituem como campo
de estudo do léxico e desenvolvimento de neologismos (MACHADO, 2018).
Portanto, o objetivo principal desta pesquisa consiste em analisar
trabalhos científicos e conteúdos digitais de grupos de pais enlutados para
integrar o neologismo lexical Vilomah no vocabulário. Realizada por meio da
pesquisa bibliográfica de cunho qualitativo para compreensão com mais
profundidade do desenvolvimento à linguagem quanto ao neologismo; À etimologia,
cadeia de sentidos, introdução na história e cultura à utilização do léxico:
Vilomah; Averiguar a influência da tecnologia e globalização na aceitação e
popularização de novos termos, importância de trabalhar a criatividade em sala
de aula.
Com isso, propõem-se a linguística, a
literatura, as licenciaturas, as ciências humanas e sociais e aos pais
enlutados no Brasil - a adoção do termo Vilomah. Assim como o debate e ensino de neologismo em
sala de aula para incentivo a pesquisas e desenvolvimento integral,
consideração no âmbito dinâmico e criativo da cultura.
2 Metodologia
A abordagem desta pesquisa foi de cunho qualitativo que não visa à
quantificação e mensuração, mas a qualidade da informação e interpretação do
leitor (Godoy, 1995). Realizada como critério de cientificidade por meio de uma
análise bibliográfica, conforme Matta (2008) uma das fontes mais tradicionais
de pesquisa recorre a textos teóricos, artigos, teses, dissertações, outros
documentos impressos e eletrônicos disponíveis online.
Houve um levantamento quanto ao termo: Vilomah que abrange conteúdos
internacionais, estes conteúdos passaram por um processo de tradução própria
com auxílio do Google tradutor. Ao colocar o léxico Vilomah no Google Scholar
foram encontrados 32 artigos internacionais, foram escolhidos 5 (cinco)[1].
1. ICHIPRO é uma revista digital japonesa, divulgada
em várias línguas com projetos sociais e conteúdo relativo à compreensão
das necessidades humanas. A revista possui uma matéria sobre a palavra
Vilomah.
2.
Karla Holloway, africana, nascida
em 1949, graduada em Linguística na Universidade de Harvard, estudou literatura, política e economia. Foi membro da universidade
Duke (Estados Unidos) até 2017 quando se aposentou.
3. Robert Frost - um poeta americano que após a perda da
esposa e de quatro filhos escreveu um poema em um dos seus primeiros
livros, o poema “Enterro em casa” (Home
Burial - original).
4. Cake é uma empresa criada por médicos
formados no MIT e Havard que auxiliam as pessoas em processo de luto,
possuem uma biblioteca de profissionais, publicam conteúdos e documentos
relacionados à morte. A Dra.
Vasquez, bacharel em Ciência Politica, publicou o artigo - Vilomah: Origin & What It Mens for
Parents who lost a child. Atualizada no dia 18 de Janeiro de 2022.
5. No Reino Unido há
uma instituição de caridade sediada com objetivo de fornecer apoio a pais
enlutados em todo o mundo: Our Missing
Peace <https://www.ourmissingpeace.org/>.
No site há artigos que podem ser utilizados. O país é um grande precursor
do movimento: A Bereaved parent (Um
familiar enlutado) criaram um abaixo-assinado
para pressionar Oxford English
Dictionary a introduzir Vilomah no dicionário. Disponível em: <https://www.change.org/p/oxford-english-dicsonary-get-vilomah-into-the-dictionary>.
Data de acesso e assinatura: 09 de Novembro de 2021.
Quanto ao estudo dos neologismos (período de 2018 a 2022) foram
encontradas: 4.410 pesquisas (2.740 em português). Destes, 912 com as palavras
chave: Neologismo. Lexical. Empréstimo. Linguística. Cultura. Por meio da
pesquisa das palavras chave foram escolhidos 31 (trinta e um) trabalhos
acadêmicos e/ou artigos que favorecem o desenvolvimento da pesquisa, dentro do
campo de intersecções: Língua, cultura, história e tecnologias. Destes, 7 (sete)
foram pré-selecionados de 2018 a 2021 para leitura e fichamento por contemplar
todas as palavras chave.
2018:
1.
FARGETTI,
Cristina Martins. Léxico em pesquisa no
Brasil.
2.
MACHADO, Amanda. Propostas de
Dicionário e de outros materiais didáticos na língua Wapichana.
3. SILVA, Renaldo César Bueno Alves da. Eis que, Posto que de Vez que como
conectivos causais [manuscrito]: Variação e padronização no Português do
Brasil.
4.
TIMBANE, Alexandre Antônio; COELHO, Dayanny
Marins. Os neologismos e a
ampliação lexical nas redes sociais.
2019:
5.
OLIVEIRA, Antônio Marcos Vieira de. A Neologia semântica presente em
capas de revista: um estudo à luz da abordagem cognitiva.
2020:
6. BARBOSA, Carlos Daví Alves. A história da língua latina e seu processo de mudança lexical na língua
portuguesa e sua abordagem no livro didático do 1º ano do ensino médio.
2021:
7.
TIMBANE, Alexandre Antônio; ROCHA, Fabiana
Ferreira da. A Criatividade
Lexical do Português Brasileiro na Imprensa Escrita Catalana.
Com relação às palavras chave, os artigos
escolhidos que repetem a autoria, conforme Lattes (2022) foi: TIMBANE,
Alexandre António: Doutor em Linguística e Língua Portuguesa (2013) pela
UNESP, Mestre em Linguística e Literatura moçambicana (2009) pela
Universidade Eduardo Mondlane –
Moçambique (UEM). É Licenciado e Bacharel em Ensino de Francês como
Língua Estrangeira (2005) pela Universidade Pedagógica-Moçambique (UP).
Atualmente atua como professor titular na Universidade Academia de
Ciências Policiais de Moçambique (ACIPOL). É pesquisador em Linguística Forense
aplicada às ciências policiais. É membro do Grupo de Estudos de
Linguística Forense da Universidade Federal de Santa Catarina e membro da International
Association of Forensic Linguists (IAFL).
3. Neologismo lexical
O léxico é um acervo de palavras utilizadas pelos falantes, portanto,
se insere na oralidade, na informalidade, tão amplo que nem o dicionário
consegue dar conta dele. Esta amplitude está em constante remodelação e
reconstrução (TIMBANE E COELHO, 2018).
Neste processo de evolução, o léxico acompanha o desenvolvimento
humano e as transformações ao longo das gerações, deixam de ser usuais e novas
unidades lexicais surgem (OLIVEIRA, 2019).
Pode ser compreendido como o estudo da etimologia
das palavras que permite a apropriação cultural, estrangeirismo e criatividade
lexical, geralmente ensinado nas aulas de literatura. Portanto, neologismo
lexical consiste na capacidade de inovação da língua na criação de palavras
novas (FARGETTI, 2018).
Timbane e Rocha (2021) resumem o neologismo lexical como o estudo da
formação de palavras que geralmente se manifestam numa dada língua. Enquanto,
para diferenciação, o neologismo semântico se inscreve no âmbito do sentido e
significado da palavra.
Conforme aponta Oliveira (2019), a utilização de neologismo reflete o
mundo extralinguístico do usuário que o utiliza para integrar o seu pensamento,
identidade e imaginação, carrega um traço ideológico, desencadeia discursos e
novas maneiras de pensar e agir. Timbane e Rocha (2021) dão ênfase na tendência
humana consciente ou instintiva em nomear tudo.
Em sala, enquanto profissionais da área linguística, terminologia,
lexicografia e literatura, temos que estimular a criação de neologismos para
ampliação da competência lexical do aluno com a brincadeira de produção de
neologismos. Essas criações lexicais na escola podem ajudar o aluno a
compreender que o léxico é uma estrutura dinâmica (MACHADO, 2018).
O desenvolvimento da linguagem quanto aos neologismos lexicais ocorre
por intermédio da literatura, âmbito da escrita, onde há mais possibilidade de
improvisar, criar, inventar e apresentar estilo nos textos, autoria, identidade
e sentimento de pertença cultural (FARGETTI, 2018).
Nessa perspectiva, pode-se afirmar que o léxico e a cultura, são
parceiros fidelíssimos no processo de comunicação, uma vez que ambos estão
ligados à identidade do sujeito, já que cada indivíduo tem liberdade para
proferir quaisquer palavras de acordo com as situações de comunicação ou ainda,
de acordo com os contextos em que acontece o discurso (TIMBANE e COELHO, 2018).
O processo descritivo muitas vezes é motivado por áreas de atividade
técnica, científica e profissional, recorrem à utilização do vocabulário comum
a eles e ao uso de termos específicos, a recursos linguísticos peculiares e
expressões não dicionarizadas, como no caso da linguagem jurídica - o
juridiquês (SILVA, 2018).
Pois, conforme Timbane e Coelho (2018), a língua está intimamente
ligada à cultura e às mudanças culturais, facilitado por meio das novas tecnologias
da informação, programas, aplicativos e redes sociais, etc. Este cenário
evolutivo criou uma espécie de “mundo comunicativo globalizado” no qual as
pessoas se sentem perto umas das outras, estando distantes apenas por um
simples clique. Desta forma, o acesso à informação é rápido e eficaz, desafiam
a linguística para inovação em qualquer parte do mundo, inclusive, há sua
própria linguagem - o internetês que possuem abreviaturas, siglas e acrônimos
para além de reduzir frases.
Os autores também salientam que as
mensagens de texto tendem a imitar a linguagem oral e desviam das normas
padronizadas pela ortografia, apresentam formações novas de palavras, de ideias
e de significados (neologismos formais, semânticos e empréstimos) vindas,
majoritariamente, da língua inglesa.
Timbane e Rocha (2021) também apontam a
influência da língua inglesa na entrada de novas palavras, pouco expressivas do
espanhol, apesar de estarmos rodeados por países latinos.
Fargetti (2018) atribui como um dos
motivos para o pouco desenvolvimento da escrita criativa no Brasil, o fato de o
país valorizar mais a oralidade, possuir poucos recursos para aquisição de
livros e pouca aderência à cultura da leitura.
3.1 Neologismo
Vilomah: O luto dos pais
No Brasil e alguns países ainda não há um
termo para os pais que perderam o filho. Entretanto, a necessidade de um léxico
para descrever este luto é uma demanda já marcada na história.
Sabe-se que em 1962 um poeta americano,
Robert Frost (2022) após a perda da esposa e de quatro filhos escreveu um poema
em um dos seus primeiros livros, denominado “Enterro em casa” (Home Burial - original), nele expõe uma
discussão de um casal para decidir onde enterrar o filho, em um trecho, há o
confronto entre o homem e a mulher: “um homem não pode falar do próprio filho
que perdeu?”, “Conte-me sobre isso se for algo humano”. “Deixe-me entrar em sua
dor”. Portanto, o poema gira em torno da dor inconsolável e inominável, na qual
gostaria de saber nomear para ser compreendido e tentar compreendê-la, o luto
como a perda do próprio coração e a inevitabilidade da solidão.
No livro publicado em 1976, intitulado “An Orphan's Tale” do escritor e
romancista Jay Neugeboren, salienta:
A esposa que perdeu o marido é chamada de
viúva. O marido que perdeu a esposa é chamado de viúvo. Uma criança que perdeu
os pais é chamada de órfã. Não há palavra para um pai que perde um filho. A
perda é terrível (ICHIPRO, online, 2022).
Em 1988, Ronald Reagan declarou outubro
como o Mês Nacional da Conscientização sobre a Gravidez e a Perda Infantil.
Karla Holloway sobre Vilomah publicou: A name for a parent whose child has died
no dia 26 de maio de 2009, quando cunhou o termo Vilomah, após anos de pesquisa
sobre a perda de um filho, situação que vivenciou em 1999 (VASQUEZ, 2022).
Vilomah, portanto, é a palavra mais
apropriada que ela encontrou para descrever o luto do pai ou mãe que perdeu o
filho. O termo possui origem em sânscrito que significa contra a ordem natural.
Pois, não é natural um filho morrer antes dos pais (ICHIPRO, online, 2022).
Desta forma, podemos considerar como
neologia por empréstimo, por ser um item lexical de uma língua estrangeira
sendo adaptada à língua receptora com semelhança semântica (OLIVEIRA, 2019).
Um dos
aspetos linguísticos que mais se evidencia na língua porque ele se desloca de
uma língua para a outra, desaparece e reaparece ganha ou perde sentidos
semânticos, adapta-se aos novos contextos na língua em que é emprestada
(TIMBANE e COELHO, 2018, p. 02).
Ferreira (2000) salienta que o sânscrito
é uma língua pouco explorada de origem indiana, incorpora diversos léxicos na
língua portuguesa, por:
●
Reiteração (reprodução do significado e vocabulário, traço simbólico e
cultural do colonizador aos colonizados);
●
Reconfiguração (empréstimo e reiteração das relações vernáculas com o
significante do significado);
●
Dispersão semântica (empréstimos para além da reorganização do sentido
do signo) responsável pelo desdobramento das potencialidades do mundo
manifesto.
Em seu artigo, Ferreira postula exemplos
de elementos do mundo vegetal, animal, mineral, mensuração, objetos,
profissões, rituais, dentre outros léxicos que foram reiterados ao nosso
vocabulário e normatizados nos discursos, nem foram considerados estrangeirismos.
Timbane e coelho (2018) apontam que
palavras estrangeiras são utilizadas na comunicação ou são inventadas por
necessidade ou luxo. Ainda, Timbane e Rocha (2021) que todas as linguagens no
mundo possuem registros de empréstimos de outras línguas, pois, toda cultura é
resultado de culturas, línguas e hábitos.
O exemplo mais próximo de Vilomah foi à
adoção do léxico: Viúva, que também possui origem em sânscrito, significa
“vazia” (ICHIPRO, online, 2022).
Vilomah é um nome para a dor da perda do
filho, pode parecer estranho no início, mas nos acostumamos com a palavra
"viúva" que devido à aceitação, foi integrada ao nosso uso diário e
vocabulário sem considerá-la estrangeirismo. Vilomah não é muito diferente e
compartilha a mesma etimologia, também pode ser integrado (HOLLOWAY,
2022).
As línguas que já possuíam um termo, são:
Em alemão, mãe enlutada é uma Verwaiste
Mutter. Em árabe, uma mãe enlutada é uma takla. Em hebraico, uma família que perdeu um filho é uma shakula (ICHIPRO, online, 2022). Para os
demais lugares, Vilomah poderia ser universal. Fomos vilomizados,
Quando uma criança é encontrada
empoeirada sob os escombros de um terremoto ou para crianças que morrem de
fome. Nossos números que crescem diariamente – com atropelamentos e descuidos, com
genocídios e acidentes, doenças e suicídio. Um pai cujo filho morreu é um
vilomah. Assista ao noticiário da noite e você verá um vilomah. Examine as
notícias na web e você lerá sobre um vilomah. Ande pelo seu bairro, há casas
com vilomahs dentro. A diferença entre a dor de hoje e a de amanhã é que agora
há um nome: Vilomah - Um pai cujo filho morreu (HOLLOWAY, 2022, online).
Profissionais da empresa Cake, criada por médicos formados no MIT
e Harvard que auxiliam as pessoas em processo de luto, desenvolvem matérias
digitais, dentre eles, Vasquez (2022) publicou o artigo - Vilomah: Origin & What It Mens for Parents who lost a child. Nele, Vasquez aponta que a perda de um
filho é uma das experiências mais dolorosas, traumáticas e insuperáveis que um
pai pode passar; agravado quando é repentina, inesperada e trágica. A não
existência de uma palavra na língua inglesa ou outra língua amplamente
conhecida faz com que os pais precisem de longas explicações para relatar o
sofrimento, leva a revivência do luto ao repetirem a frase “Eu tive um filho
que já morreu”.
Vilomah é uma palavra nova e antiga
(escrituras), conforme aponta Vasquez (2022), mas que não estava presente na
língua inglesa, foi introduzida informalmente por diversos autores e movimentos
de pais para auxiliar a comunicação sobre o luto e a dor de perder o filho.
No Reino Unido há uma instituição de
caridade sediada com objetivo de fornecer apoio a pais enlutados em todo o
mundo: Our Missing Peace <https://www.ourmissingpeace.org/>.
O país é um grande precursor na utilização e para introduzir o termo vilomah no
vocabulário.
Há um abaixo assinado criado por “A Bereaved parent” Um familiar enlutado
para tornar oficial a palavra Vilomah no Oxford
English Dictionary. Disponível em
<https://www.change.org/p/oxford-english-dicsonary-get-vilomah-into-the-dictionary>[2]
com meta de 2.500 (duas mil e quinhentas) assinaturas necessárias para que o
léxico seja mais divulgado na mídia.
Timbane e Rocha (2021) salientam que a
dicionarização de palavras não traz garantia de que o termo usado ou consultado
por parte da comunidade linguística, mas, garante que o registro formal permite
a patrimonialização, a conservação e utilização em algum momento da história.
Ichipro (2022) salienta que dar nome
auxilia a reflexão e legitima a dor. Vasquez (2022) salienta que dar um nome é
dar identidade aos pais que perderam um filho, reduzir o tabu sobre a morte e
morrer, possibilita falar sobre o sentimento e não sofrer em silêncio,
encontrar grupos semelhantes, dar e receber conforto e consolo. Ainda,
considera que os pais podem buscar uma forma de encerramento e a cura de sua
perda. No artigo sugerem formas de honrar a memória que possuem sobre o filho e
homenageá-lo.
A tecnologia influencia na variação
linguística, principalmente quando os interlocutores identificam interesses,
histórias em comum e temas para compartilhar. Estas variações correspondem às
necessidades de grupos específicos ou não, cuja população possui um mesmo
sentimento de inovação, criação ou adoção (TIMBANE e COELHO, 2018).
O uso de palavras e expressões que até o
momento não existiam e começaram a existir pode facilitar o ato da comunicação.
Os movimentos internacionais em blogs, sites, dentre outros, facilitam a
interação e formação de membros em grupos, influenciam no uso do termo e
tentativas de incluir a linguagem formal (TIMBANE e COELHO, 2018).
Barbosa (2020) afirma que a incorporação
de neologismo por empréstimo na língua portuguesa acontece de forma natural,
sem necessitar de intervenções de leis, decretos ou especialistas sobre o assunto.
Pois, quando há necessidade do vocábulo e não há outro equivalente, os falantes
encontram o que merece destaque e introduz, mesmo se antes precisar ser
aportuguesado.
4. Considerações
finais
Vilomah é um termo de origem do
sânscrito que significa contra a ordem natural, escolhida por Karla Holloway em
2009 para nomear o luto dos pais ao perder um filho, portanto, o método de
escolha foi um processo de atribuição semântica e por semelhança metafórica com
o conceito que buscava, recorreu ao empréstimo.
Trata-se de um
léxico que ainda não foi aderido no vocabulário oficial internacional de países
que pretendem registrá-lo, portanto, pretendem tornar uma nova palavra da
cultura deles, sem considerar estrangeirismo, devido à influência do sânscrito
em vários termos por reiteração, desta forma também poderia ser o processo de
inclusão no Brasil.
Infelizmente, não
precisamos procurar muito para encontrar uma história de alguém que sofreu a
morte de um filho. As produções internacionais para integrar o neologismo
Vilomah no vocabulário evidenciam o empenho de pais enlutados e demonstram a
importância da aceitação do termo, pois esta deveria ser um desafio também para
os profissionais nas ciências humanas e sociais na adoção do termo.
Considerando que para se tornarem pais,
as pessoas passam por um processo de transformação subjetiva e objetiva que os
modificaram biopsicossocialmente. Portanto, a perda de um filho - não deveria
transformá-los em não pais ou apenas pais enlutados, como se o luto fosse uma
condição permanente ou se a morte do filho fosse algo indiferente.
Há de considerar as tentativas de
gestação, organização do lar, trauma do parto, apresentação da gravidez e
posteriormente da prole aos íntimos e a comunidade, as expectativas sobre a
criança, medo, incerteza, angústia, aceitação, conformidade, desejos e
projeções para o futuro, amor, afeto, tristezas e alegrias, mobilização para
educação informal e formal, tudo isso e muito mais que pode ter acontecido na
vida destas pessoas.
Neste contexto, a necessidade de um termo
faz-se urgente, pois, aqueles que foram pais de apenas um filho que morreu:
Como eles diriam aos outros que já foram pais, mas agora não são? Perder o
filho os torna não pais? Sabe-se que seu mundo e quem eles eram antes mudam
para sempre (VASQUEZ, 2022).
Este é o principal motivo que impulsiona o termo Vilomah e deveria
justificar no Brasil o apoio aos movimentos internacionais, acesso ao conhecimento
possibilitado pela influência da tecnologia e globalização na disseminação da
informação.
Ao longo dos anos após a perda do filho (a), é normal que os pais calculem
a idade que o filho teria, imaginem com quem pareceria, o que faria no futuro;
Falar sobre o luto pode contribuir para estabilidade e manutenção da saúde
mental, visto que sublimar é um mecanismo eficiente de elaboração psíquica que
pode possibilitar a aceitação e continuidade da vida apesar do acontecimento.
Este processo não precisa ser doloroso, pode ser mais contemplativo se a
elaboração da perda for adequada com apoio de grupos e profissionais. O que
permanece é o amor e a saudade do filho, aquele que os transformou em pais.
Portanto, conclui-se constatada a importância de nomear e aderir ao registro
oficial do léxico Vilomah nos dicionários internacionais.
Desenvolver novos estudos, citar e referênciar são ações importantes
para popularização e aceitação do termo no Brasil. Este debate sobre o
neologismo vilomah pode corroborar novas pesquisas e o surgimento de outros
termos, inclusive, pode ser um conteúdo discutido nas escolas no ensino médio e
superior, incentivando a literatura, a leitura, as pesquisas, o desenvolvimento
de palavras e a criatividade.
Referências
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de mudança lexical na língua portuguesa e sua abordagem no livro didático do 1º
ano do ensino médio. Cajazeiras, 2020. 83 F Bibliografia. Orientador: Prof.
Esp. Abdoral Inácio da Silva. Monografia (Licenciatura em Letras Língua
Portuguesa) UFCG/CFP, 2020.
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FERREIRA, M. Palavras de origem
indiana no léxico da língua portuguesa: Processos de reiteração,
reconfiguração e dispersão semântica. Estudos
Linguísticos. São Paulo. GEL. n.
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